Teatro para o nada

Curso de atuação com Bruna Trindade

(integrante dos Hanimais Hestranhos e do Grupo Lacuna)

Como o trabalho sobre a percepção pode nos oferecer uma vida conjunta?

A terceira turma deste curso de teatro virtual investigará a convivência com o outro, tendo como horizonte a pesquisa sobre percepção e escuta. Faremos uma jornada em busca de uma atuação mais vulnerável aos acontecimentos e com uma atenção sensível aos pequenos e grandes detalhes. Durante a pesquisa corporal, exploraremos tanto o que pode ser ‘estar em fluxo’, quanto estratégias concretas para trazer a mente para o momento presente, para estar junto e conectada ao corpo e aos outros (textos, objetos, espaços e pessoas).

Caminharemos ao lado de Samuel Beckett, mais precisamente estudando Esperando Godot. Como podemos reler essa peça hoje, em um momento particularmente inóspito? O texto será nossa paisagem de criação: a partir dessas figuras estagnadas, que esperam, escutam e realizam ações “para nada”, vamos repensar o que é o fazer teatral em nossa própria paragem.

O desejo que originou essa oficina veio da necessidade de experimentar os limites da nova interação a partir de uma plataforma online com atores e não-atores. É bonito testemunhar as paridades e as diferenças que brotam de um trabalho como esse. Muitas das questões levantadas pelos alunos das duas turmas passadas são similares às quais me deparo trabalhando no teatro. Como estar com um outro (em cena, ou em exercícios corporais) num jogo que é coletivo, ao mesmo tempo sendo fiel ao meu próprio fluxo? Como elaborar e falar sobre o trabalho sem enrijecê-lo? Como repetir uma estrutura, não por sua forma final, mas pelo processo que a levou a ser assim? São perguntas que não almejamos responder, mas mantê-las nesse lugar inquieto de constante reverberação.

16 a 27 de novembro - segunda, quarta e sexta, das 9h às 11h (horário de Brasília)

Carga horária: 12h (6 encontros x 2h)

Curso online através da plataforma Zoom

Valor: R$ 160,00

Público-alvo:

A oficina é destinada a todo tipo de gente, inclusive àqueles que nunca trabalharam com teatro. O interesse pela não-homogeneidade desta turma parte do desejo de criar um ambiente fértil em que as pessoas possam ter contato com aquilo é que diferente delas. As vagas são limitadas, pois haverá um trabalho particular feito com cada um dos alunos.

Inscrições encerradas

Ementa:

Percepção de si e do outro:
Não estamos em busca de um novo modo de representar, mas antes de um outro modo de perceber. Através de exercícios corporais, desde o aquecimento até a criação de pequenos fragmentos de cena, investiremos numa relação mais íntima e perceptiva com o próprio corpo e com os outros. Exploraremos tanto o que pode ser ‘estar em fluxo’ individual e coletivamente, quanto estratégias concretas para trazer a mente para o momento presente, para estar junto e conectada ao corpo e aos outros (textos, objetos, espaços e pessoas).

Percepção do espaço físico e virtual:
É um teatro feito em casa, onde se é observado a partir de um dispositivo. Vê-se a própria imagem refletida em cena, como se no fundo do palco existisse um grande espelho. Pensaremos a materialidade da tela como o lugar onde o encontro acontece, assim como a concretude da câmera que nos capta, já que a imagem fornecida por nós também faz parte do jogo - tanto quanto o nosso corpo.

Objetos:
Trabalharemos com alguns objetos presentes na casa dos alunos, abrindo a percepção para um modo de operar que, ao invés de se apossar dos objetos, se relaciona com eles como parceiros de cena, tão importantes quanto os textos ou os corpos. O intuito é perceber de que modo a relação com um objeto pode destituir o corpo de um lugar individualizante, a partir de sua capacidade de ser sensivelmente afetado, transformado, vencido, alterado. Como podemos aprender com os objetos a estar no espaço?

Improvisações estruturadas:
Trabalharemos a partir de jogos e dispositivos com regras concretas: conjuntos de ações previamente elaboradas e então memorizadas pelos jogadores. Os improvisos possuem um contorno rascunhado, mas o que dá sua vida e forma é a convivência atenta entre os jogadores. Na medida em que se incorpora o acaso e a percepção, a mesma estrutura pode ser vivida de infinitas maneiras a cada jogo. Desejamos, tal qual uma cascata de dominó, perceber como uma ação leva a outra por uma espécie de contágio recíproco.

Esperando Godot:
A imobilidade na qual estamos inseridos revela outras camadas dessa peça, escrita entre outubro de 1948 e janeiro de 1949. Nunca estivemos tão próximos de Vladimir e Estragon como estamos agora. O gerúndio da espera anunciada no título, a incerteza e a impotência em relação ao que está por vir, a angústia de uma vida repetitiva somos nós, Didi e Gogo. Nunca foi tão necessário esperar.

Bibliografia:

  • Esperando Godot, de Samuel Beckett. Tradução de Fábio de Souza Andrade - Cosacnaify.

  • A poética do Fracasso, de Felipe Augusto Souza, capítulo III: Samuel Beckett: dramaturgia e encenação. 3.1.1: Esperando Godot.

  • A noção da escuta: afetos, exemplos e reflexões, de Tatiana Motta Lima. LUME, p. 1-19.

  • Criança desordeira, de Walter Benjamin, no livro Obras escolhidas II: Rua de mão única (5ª ed.). (1995). São Paulo: Brasiliense.

  • Diante da palavra, de Valere Novarrina, (2ª ed.) (A. L. Lopes, Trad.) Rio de Janeiro: 7letras.

Professora:

Bruna Trindade é formada em Atuação Cênica pela UNIRIO e em direção de fotografia pela AIC, fundou o Grupo Lacuna em 2011. Entre os trabalhos, estão o solo A Mulher Que Virou Planta, que fez temporada no Rio de Janeiro em 2019, e o esquete Acordados, uma releitura de Romeu e Julieta que recebeu mais de 20 prêmios em festivais de esquetes pelo Brasil. Bruna também integra os grupos Hanimais Hestranhos, dirigido por Tatiana Motta Lima, que trabalha com as obras de Samuel Beckett e Fernando Pessoa, e a Caravana Haole, dirigida por Jopa Moraes. Juntos, estrearam a peça O Insaciável Zé Carioca no Espaço Armazém (RJ), e ministram a oficina Um Módulo Para o Vento, destinada a adolescentes. Protagonizou a websérie Bulbassaura Maravilha, e o curta Heterônimo, dirigido por Vitor Medeiros, exibido em festivais como Janela Internacional de Cinema de Recife e Mostra de Tiradentes. Foi produtora, atriz e cenógrafa do coletivo Lá vai Maria, realizando espetáculos como O Desbunde, que esteve no Circo Voador e no Circuito SESC-RJ. Pela Ritornelo, ministra os cursos TEATRO PARA O NADA e CORPOS ACÚSTICOS.

Site com portfolio: brunatrindade.com

Registro da primeira turma, iniciada em junho/2020